Por vezes me questionam sobre meu processo criativo. Minha resposta é: observo a vida, meu entorno e as pessoas as quais cruzam o meu percurso. Tenho verdadeira ojeriza de efetivar pesquisas criativas no Google. Sem dúvidas, é uma bela ferramenta que, com muita metodologia e pesquisas profundas, traz respostas para diferentes questões. Mas NÃO para uma criação inovativa!

Experimente pesquisar "Cadeira Desmontável"; são 1.420.000.000 de resultados. Agora pesquisa por "Cadeiras de Praia" e note que são 19.000.000 de possibilidades. O mesmo acontece "seguindo" designers, marcas ou canais de curadoria de design. O máximo que conseguirá é um bom produto "dejavú".

Particularmente, meu processo de pesquisa sempre foi "unplugged" e decorrente disso são as criações as quais desenvolvi desde meu "debut" no mundo do design, há 22 anos. Goste ou não, são produtos completamente diferentes e com propostas inéditas.

A receita para tais criações inéditas é o ESTAR presente. A importância do momento presente é tamanha, que os gregos tinham duas palavras para o tempo: chronos x kairós. O primeiro refere-se ao tempo que se mede, o tempo da quantidade. Já o segundo termo fala da experiência e intensidade do momento, da qualidade do tempo presente.

E é exatamente este segundo ponto onde, na minha opinião, reside um grande espaço para o criativo: o momento presente e o deleite da percepção do seu interior com o exterior. Momento no qual observar as pessoas, o seu entorno, a arquitetura que o circunda ou até mesmo o entardecer transformam-se em inputs criativos.

Em resumo, é a qualidade da conexão com si próprio e com o contexto. Esta é, sem dúvida, a melhor (e mais simples) forma de SER ou tornar-se CRIATIVO.

Obviamente que assim como é necessário treino para se tornar um bom "yogue'', ou um bom maratonista, é igualmente necessário treinar para esse estado de espírito que aguça as suas percepções. É ali que encontramos a alma para uma nova (e boa) criação.

Dessa forma me questiono com o evoluir das tecnologias, quantos momentos presentes deixamos de viver e, por consequência, quantas boas ideias deixamos de ter. Aquele almoço regado com muito celular, o encontro com amigos permeado de muitas leituras em tablets, e por aí vai; são nocivos ao "SER" social e sua conexão com o momento.

Escuto, por vezes, pessoas dizendo sobre os "grandes momentos criativos" em meio a esta reclusão/ pandemia. Não acredito! Ao menos, não numa inovativa e bela criação.

A boa criação não é egoísta, mas sim altruísta. Parafraseando o grande filósofo sobre o tema design, Victor Papanek: "O que realmente importa sobre design é o como ele se relaciona com as pessoas".

Logo, aí vai meu pensamento sobre as regras (ou seriam mandamentos?) para o (bom) processo criativo:

- Que vivamos o momento presente;

- Que observemos as pessoas;

- Que criemos para as pessoas.

Tenho como hábito observar e estudar atento às tendências humanas. Atualmente há um grande movimento de fuga de centros urbanos, em busca de uma conexão com o verde. De nada adiantará tal escape urbano se houver a permanência no hábito de poluir a mente com a excessiva conexão digital.

Como resultante, deixa-se o "loco" do caos urbano e o transporta ao campo, quando, na verdade, esse movimento de desconectar para se reconectar deve se iniciar no AGORA, no poder do AGORA.

Como disse Sócrates: "Conhece-te a si mesmo". A frase que marcou seu pensamento tem muito a ver com o que a aqui quis realçar: só após o autoconhecimento é que poderá haver o conhecimento do mundo. E é nessa relação que a criação emerge.

*Este artigo foi publicado na revista IT HOME.